Sábado, 13 de Junho de 2009

FRAGMENTO - PEDRO E ALAIDE



(Apaga-se o plano da alucinação. Luz no palco da
memória.)


PEDRO - Você continua com essa brincadeira?


ALAÍDE - Brincadeira o quê? Sério!


PEDRO - Não me aborreça, Alaíde!


ALAÍDE - O que é que você fazia?


PEDRO - Não sei. (rápido) Matava você.


ALAÍDE - (céptica) Duvido. Nunca você teria essa
coragem!


PEDRO - (olhando-a) É. Não teria.


ALAÍDE - Não disse? Mas se eu fugisse, se me
transformasse numa madame Clessi?


PEDRO - Sei lá, Alaíde! Sei lá!


ALAÍDE - (perversa) Ah! É assim que você me
responde? Pois fique sabendo...


PEDRO - O quê?...


ALAÍDE - (maliciosa) Não digo!


(Cantarola Danúbio Azul.)


PEDRO - (gritando) Agora diga. Diga.


ALAÍDE - (maliciosa) Digo o quê!


PEDRO - Então não falasse!


...


(Luz no plano da memória. Pedro lê um livro.)


ALAÍDE - (provocadora) Você não acaba com esse
livro?


PEDRO - Mas, minha filha, comecei agora!


ALAÍDE - (com irritação) Por causa dos seus livros
você até esquece que eu existo!


PEDRO - (conciliatório) Não seja boba!
(Levanta-se, quer abraçar a mulher.)


ALAÍDE - (repelindo-o) Fique quieto! Não, não, já
disse!
(Pedro insiste.)


ALAÍDE - (sentida) Não quero! Vá ler seu livro, vá!


PEDRO - (brincando) Não vou!


VOZ DE CLESSI - (microfone) Quem é essa mulher
de véu?


PEDRO - Não seja assim, Alaíde!


ALAÍDE - (veemente) Não seja assim o quê! Você
nem me liga e agora está com esses fingimentos.


PEDRO - (afetuoso) Deixe de ser criança! Venha cá!
Um beijinho só!


ALAÍDE - (intransigente) Não, não vou, não!
Desista. (ameaçadora) Pedro! (repele-o) Também
vou ler!


PEDRO - O quê?


ALAÍDE - (enigmática) Você nem faz idéia! Um
diário! O diário de uma grande mulher!
(Trevas.)


ALAÍDE - (nas trevas, ao microfone) Ele não sabia
por que eu estava mudada. Tão mudada. Como
podia saber que era um fantasma - o fantasma de
madame Clessi - que me enlouquecia?



(Luz no plano da memória. Pedro lê.)


ALAÍDE - (provocante) Pedro. (diz o nome de
maneira cantante, destacando as sílabas: PE-DRO;
silêncio de Pedro) Ah! Está assim, héim!


PEDRO - (sem se voltar) Quem manda você fazer o
que fez?


ALAÍDE - Eu não fiz nada!


PEDRO - Me repeliu!


ALAÍDE - Repeli, sim. Eu não gosto de você! Deixei
de gostar há muito tempo! Desde o dia do nosso
casamento...


PEDRO - (levanta-se e aproxima-se) Bobinha!


ALAÍDE - Sério!
(Os dois se olham.)


ALAÍDE - (ficando de costas) Gosto de outro.


PEDRO - (apreensivo) Alaíde! Olhe o que eu lhe
disse!


ALAÍDE - (acintosa) Gosto, sim. Gosto de outro.
Que é que está me olhando?


PEDRO - (com certa ameaça) Não continue, Alaíde!


ALAÍDE - No mínimo, você está pensando: "Se ela
gostasse de outro, não diria." Acertei?


PEDRO - Você é completamente doida!


ALAÍDE - Por que é que você não se ofende com as
coisas que estou dizendo?


PEDRO - Vou ligar ao que você diz?


ALAÍDE - (irônica) Ah! Não! (exaltada) Você faz
mal em dizer que não mataria nunca a sua mulher!...
Um marido que dá garantias de vida está liquidado.


PEDRO - (irritado) Não provoque, Alaíde!


ALAÍDE - (exaltada) Vou abandonar você, fugir
daqui! Quero ser livre, meu filho! Livre! Tão bom!


PEDRO - (impulsivo, pega-lhe o braço, torce-lhe o
pulso. Terrível.) Não disse para não me provocar -
não disse?


ALAÍDE - (desesperada) Ai - ai! Eu estava
brincando, Pedro. Ai! Ai!


PEDRO - (sinistro) Nunca mais na sua vida brinque
assim - nunca mais! Ouviu?


ALAÍDE - (louca de dor) Pelo amor de Deus, Pedro -
ai. Não, Pedro! Juro...


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Diga não ao desrespeito ao processo criativo do autor.
Email para contato: artelirica@hotmail.com - blog do autor: www.souzaheiras.blogspot.com

Fragmento - Madame Clessi e Alaíde



(Surge na escada uma mulher.
Espartilhada, chapéu de plumas. Uma elegância
antiquada de 1905. Bela figura. Luz sobre ela)


ALAÍDE - (num sopro de admiração) Oh!


MADAME CLESSI - Quer falar comigo?


ALAÍDE - (aproximando-se, fascinada) Quero, sim.
Queria...


MADAME CLESSI - Vou botar um disco.


(Dirige-se para a invisível vitrola, com Alaíde
atrás.)


ALAÍDE - A senhora não morreu?


MADAME CLESSI - Vou botar um samba. Esse aqui
não é muito bom. Mas vai assim mesmo. (samba
surdinado) Está vendo como estou gorda, velha,
cheia de varizes e de dinheiro?


ALAÍDE - Li o seu diário.


MADAME CLESSI - (céptica) Leu? Duvido! Onde?


ALAÍDE - (afirmativa) Li, sim. Quero morrer agora
mesmo, se não é verdade!


MADAME CLESSI - Então diga como é que começa.
(Clessi fala de costas para Alaíde.)


ALAÍDE - (recordando) Quer ver? É assim... (ligeira
pausa) "ontem, fui com Paulo a Paineiras"... (feliz) É
assim que começa.


MADAME CLESSI - (evocativa) Assim mesmo. É.


ALAÍDE - (perturbada) Não sei como a senhora pôde
escrever aquilo! Como teve coragem! Eu não tinha!


MADAME CLESSI - (à vontade) Mas não é só aquilo.
Tem outras coisas.


ALAÍDE - (excitada) Eu sei. Tem muito mais.

Fiquei!... (inquieta) Meu Deus! Não sei o que é que
tenho. É uma coisa - não sei. Por que é que eu estou
aqui?


MADAME CLESSI - É a mim que você pergunta?


ALAÍDE - (com volubilidade) Aconteceu uma coisa,
na minha vida, que me fez vir aqui. Quando foi que
ouvi seu nome pela primeira vez? (pausa) Estou em
lembrando!
(Entra o cliente anterior com guarda-chuva, chapéu
e capa. Parece boiar.)


ALAÍDE - Aquele homem! Tem a mesma cara do
meu noivo!


MADAME CLESSI - Deixa o homem! Como foi que
você soube do meu nome?


ALAÍDE - Me lembrei agora! (noutro tom) Ele está
me olhando. (noutro tom, ainda) Foi uma conversa
que eu ouvi quando a gente se mudou. No dia
mesmo, entre papai e mamãe. Deixe eu me recordar
como foi... Já sei! Papai estava dizendo: "O negócio
acabava...


...


ALAÍDE - (evocativa) Você foi apunhalada por um
colegial.


CLESSI - (admirada) Quer dizer que Lúcia e a
mulher do véu são a mesma pessoa!


ALAÍDE - (sempre evocativa) ... um menino de
dezessete anos matou você. (abstrata) 27 de
novembro de 1905. Até a data eu guardei!


CLESSI - (doce) Irmãs se odiando tanto! Engraçado -
eu acho bonito duas irmãs amando o mesmo
homem! Não sei - mas acho!...


ALAÍDE - Você acha?


CLESSI - (a sério) Acho.


(Som de derrapagem, Um grito de mulher.
Ambulância. Personagens imóveis.)


ALAÍDE - Mais bonito é ser assassinada por um
menino. Um colegial! (noutro tom) Ele usava
uniforme cáqui?


CLESSI - (doce e evocativa) De dia, sim. De noite,
não.


ALAÍDE - Eu queria tanto te amado um menino. O
seu tinha dezessete anos? (a outra confirma) Devia
ser muito branco.


CLESSI - (inquieta) Seria tão que cada pessoa morta
pudesse ver as próprias feições! Eu fiquei muito
feia?


ALAÍDE - O repórter disse que não. Disse que você
estava linda.


CLESSI - (impressionada) Disse mesmo? Mas...
(pausa, com o olhar extraviado) E o talho no rosto?
(abstrata) Uma punhalada no rosto não é possível!
Foi navalhada, não foi? (noutro tom) Eu queria tanto
me ver morta!


(Aproxima-se dos círios. Hesita. A mulher inatual
faz que levanta um invisível lenço a cobrir um
invisível rosto.)


CLESSI - (espantada) Gente morta como fica!...



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Quarta-feira, 6 de Maio de 2009

SANTA TERESA D'ÁVILA

Nada te perturbe,
Nada te espante,
Tudo passa,
Deus não muda,
A paciência tudo alcança;
Quem a Deus tem
Nada lhe falta:
Só Deus basta.

Eleva o pensamento,
Ao céu sobe,
Por nada te angusties,
Nada te perturbe.
A Jesus Cristo segue
Com peito grande,
E, venha o que vier,
Nada te espante.
Vês a glória do mundo?
É glória vã;
Nada tem de estável,
Tudo passa.
Aspira às coisas celestes,
Que sempre duram;
Fiel e rico em promessas,
Deus não muda.

Ama-O como merece,
Bondade imensa;
Mas não há amor fino
Sem a paciência.
Confiança e fé viva
Mantenha a alma,
Que quem crê e espera
Tudo alcança.
Do inferno acossado
Muito embora se veja,
Burlará os seus furores
Quem a Deus tem.
Advenham-lhe desamparos,
Cruzes, desgraças;
Sendo Deus o seu tesouro,
Nada lhe falta.

Ide, pois, bens do mundo,
Ide, ditas vãs;
Ainda que tudo perca,
Só Deus basta. (Santa Teresa de Ávila)






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Sábado, 14 de Março de 2009

Verdades Inescapáveis





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Quarta-feira, 4 de Março de 2009

Romeu e Julieta e o segredo da caixa mágica



A peça Romeu e Julieta é uma brincadeira que pretende educar e informar ao espectador as regras da nova reforma ortográfica!
Uma aventura deliciosa que mexe com a imaginação da juventude e sem a pretensão de ser algo metódico, ela ensina e educa.

Romeu e Julieta são dois amigos do ensino médio que precisam apresentar um trabalho escolar que por sinal é uma cena da peça do romance de Shakespeare. Durante um dos ensaios eles são surpreendidos por Juvenal e Dó. Dois seres do mundo de Houaiss que precisam da ajuda dos dois amigos para resolverem o enigma de uma maldição que poderá acabar com o mundo das palavras para sempre. Amorreu, um bruxo do mundo dos vocábulos criou um licor venenoso que levou seu irmão gêmeo, senhor Aurélio, à loucura. Aurélio é o sábio das palavras e foi traído por seu irmão justo quando ele estava reformando a ortografia para reunir os seres de outros planetas que falavam a mesma língua que os viventes de Houaiss. O encanto só será desfeito quando a reforma ortografica for compreendida através de uma cena da peça romântica do dramaturgo inglês, mas que só poderá ser interpretada pelo casal Romeu e Julieta dos tempos modernos. Com isso a caixa mágica onde está guardada o antidoto se abrirá e o senhor Aurélio passará a existir lucidamente como antes. Mas a aventura não termina por aí, o enigma deverá ser esclarecido antes de o grande sino Michaellis der sua última badalada. Caso o contrário, as palavras não serão mais ditas nem escritas, e o mundo da comunicação desaparecerá para sempre.
Então, vamos embarcar nessa mágica e conhecer como realmente é fantástico o mundo das palavras!



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Terça-feira, 17 de Fevereiro de 2009

Greta Ranieri - Entre o batom e o coração


Entrar no mundo das drag queen’s e revelar todos os seus segredos!
Eis o objetivo do roteiro: “Greta Ranieri – A história de amor de uma drag queen”.
Renato é um jovem sonhador que levado pela arte resolve fazer de sua vida uma obra poética salpicada de romantismo, mas não raramente, tendo a garra de lutar contra o preconceito.
Como seria a vida de um jovem que com apenas vinte e sete anos de idade já tem uma carreira promissora como drag queen, mas que por outro lado, vive as desventuras dos corações que só veem o relacionamento gay como um mero passatempo?
Influenciado pelas histórias biográficas de Greta Garbo e Edith Piaf , Ranieri vai construindo o seu mundo com as ferramentas que aprendeu a manejar com a vida.
Homofobia, hipocrisia e intolerância, são termos apontados pela dramaturgia de Souza Heiras, que envolve o espectador em uma dinâmica o chocando pela simplicidade e sensibilidade do texto. Com um final emocionante o roteiro aponta um triângulo amoroso tragicamente construído por mentiras.
Vale a pena entrar no camarim de Greta Ranieri e desvendar todas as suas intimidades. Você está preparado?

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Prece do ator

Ó meu Deus, ator onipotente, criador do maior espetáculo- o universo, ouvi-me nesta prece de amor!
Dai-me a perseverança, a paciência, a dignidade e o amor ao próximo; para que o meu expectador possa suportar com perseverança, com paciência, com dignidade e com amor!
Fazei com que eu viva o meu papel sem distanciar-me de Vós!
Fazei com que minha personalidade não se deixe influenciar pelo meu personagem, mas que eu possa colher dele toda vivência, todo vigor, toda força e toda magnitude!
Que eu transforme a realidade em uma nova realidade, que eu recrie a obra de arte com toda força interior e que eu colha do meu trabalho, toda justiça, toda grandeza, toda fortaleza e todo amor!
Fazei com que as luzes dos refletores se tornem luzes divinas a iluminar todos os atos da minha vida! Para que eu faça do palco um altar, sempre na intenção de respeitar, dignificar, amar e venerar...
Que cada representação seja para mim um ato de fé!
Que cada trabalho seja um sacrifício de glória e sucesso!
Para que eu envelheça crescendo na representação e represente crescendo na velhice, sempre trabalhando, sempre emocionando e sempre glorificando.
Enfim, para quando eu não mais existir, a minha atuação aqui na Terra não tenha sido em vão, e que, quando cair o pano, no ato final, todos aqueles que conviverem comigo, possam aplaudir-me, gritando: Bravo! Bravo! E, assim, eu possa agradar ao maior Diretor Universal: DEUS!...

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Quarta-feira, 7 de Janeiro de 2009

Realejo - Poesias e outras coisas


No dia 17 de janeiro, Machado será palco de um lindo sarau.
Reunindo grandes poetas como Vinícius de Moraes, Mario Quintana, Fernando Pessoa entre outros, os atores: Souza Heiras, Isabel Ramos e Rodrigo Freitas (Os dois últimos, da cidade de Guaratinguetá - SP) apresentam através de encenações um espetáculo poético com o nome de Realejo.
A noite também é presenteada com apresentações de dança cigana, tango performático e música ao vivo (MPB).
É um espetáculo singelo, sublime e emocional.
Com o apoio de empresas machadenses, o evento tende a abrilhantar o início deste ano com cultura de bom gosto e um trabalho de qualidade.
Junte-se a nós e seja bem vindo! Você não vai ter coragem de perder, vai?

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Quarta-feira, 10 de Dezembro de 2008

Aqui e acolá...

No teatro, no momento em que estou em cena, em que piso o palco, ali está o
centro, o umbigo do mundo. Esse sentimento independe da avaliação alheia. Isso
não é presunção. É vocação. Morro de medo e insegurança. Mas essa crença me põe
de pé. Fernanda Montenegro

Diante de Chico Buarque, todo homem é um corno em potencial. A rigor, a sua
mulher está contigo nesse exato momento porque não teve competência para estar
com Chico Buarque.

“EU ESCREVO.É MINHA FUNÇÃO E OBJETIVO, HÁ MUITOS ANOS. A TÁBUA DE SALVAÇÃO PARA APLACAR O DESESPERO.” (MICHEL MELAMED)

“A mágica só é possível quando a alma desdenha o medo. Uma música feita de dentro pra fora é o que faz um sonho capaz, suavizando o tempo e tornando as pessoas menos ásperas. Assim fez Freddie Mercury em sua magnífica jornada nos braços do Queen. O rock ganhou vida e cor, e sua epopéia fez toda uma geração acreditar que música é o caminho pra se manter um sorriso aberto e um coração vivo. A paz pode ser uma utopia, mas quando uma música do Queen toca, o mundo desacelera e tudo parece fazer mais sentido. Só que as pessoas nascem e morrem. Então, cabe a cada um manter uma luz acesa, plantando uma semente para que certas coisas nunca sejam esquecidas, se tornado pra sempre imortais.” - Dudu Cesar

"Nunca acreditei em verdades únicas. Nem nas minhas, nem nas dos outros. Acredito que todas as escolas, todas as teorias podem ser úteis em algum lugar, num dado momento. Mas descobri que é impossível viver sem uma apaixonada e absoluta identificação com um ponto de vista. No entanto, à medida que o tempo passa, e nós mudamos, e o mundo se modifica, os alvos variam e o ponto de vista se desloca. Num retrospecto de muitos anos de ensaios publicados e idéias proferidas em vários lugares, em tantas ocasiões diferentes, uma coisa me impressiona por sua consistência. Para que um ponto de vista seja útil, temos que assumi-lo totalmente e defendê-lo até a morte. Mas, ao mesmo tempo, uma voz interior nos sussurra: "Não o leve muito a sério. Mantenha-o firmemente, abandone-o sem constrangimento." Peter BrooK

A injustiça avança hoje a passo firmeOs tiranos fazem planos para dez mil anosO poder apregoa: as coisas continuarão a ser como sãoNenhuma voz além da dos que mandamE em todos os mercados proclama a exploração; isto é apenas o meu começoMas entre os oprimidos muitos há que agora dizemAquilo que nòs queremos nunca mais o alcançaremosQuem ainda está vivo não diga: nuncaO que é seguro não é seguroAs coisas não continuarão a ser como sãoDepois de falarem os dominantesFalarão os dominadosQuem pois ousa dizer: nuncaDe quem depende que a opressão prossiga? De nòsDe quem depende que ela acabe? Também de nòsO que é esmagado que se levante!O que está perdido, lute!O que sabe ao que se chegou, que há aì que o retenhaE nunca será: ainda hojePorque os vencidos de hoje são os vencedores de amanhã. Bertold Brecht

"Viver é raro... a maioria das pessoas insiste em existir, apenas..."Ellen Oléria

"Eu tinha uma necessidade desesperada, quase mórbida, de ser amada, ainda mais porque eu sentia que era feia, ruim, não tão amável." Edith Piaf

"Num filme o que importa não é a realidade, mas o que dela possa extrair a imaginação"(Charles Chaplin)

Perdi-me muitas vezes pelo mar, o ouvido cheio de flores recém cortadas, a língua cheia de amor e de agonia. Muitas vezes perdi-me pelo mar, como me perco no coração de alguns meninos. Não há noite em que, ao dar um beijo, não sinta o sorriso das pessoas sem rosto, nem há ninguém que, ao tocar um recém-nascido, se esqueça das imóveis caveiras de cavalo. Porque as rosas buscam na frente uma dura paisagem de osso e as mãos do homem não têm mais sentido senão imitar as raízes sob a terra. Como me perco no coração de alguns meninos, perdi-me muitas vezes pelo mar. Ignorante da água vou buscando uma morte de luz que me consuma.Frederico Garcia Lorca

Com a fronte voltada para o chão e o pensamento alto,ia eu andando, andando,e na senda do tempose lançava minha vida em busca de um desejo.Junto ao caminho cinzentovi uma vereda em flore uma rosacheia de luz, cheia de vidae de dor.Mulher, flor que se abre no jardim:as rosas são como tua carne virgem,com sua fragrância inefável e sutile sua nostalgia da tristeza.1921 - Poemas EsparsosFederico Gracía Lorca


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Segunda-feira, 1 de Dezembro de 2008

O processo de criação

Roteiro de Teledramaturgia - Idéias - Rádio TV
por : Werneck
Autor : Rogério Werneck Publicado em: agosto 16, 2007



Se existe imaginação, existem idéias. Elas nascem de um processo mental que, ao que se sabe, só os humanos são capazes de experimentar. Em se tratando de roteiro de ficção, outros dois conceitos estão estreitamente ligados às idéias: Criatividade- o encadeamento lógico das idéias. Originalidade- é o que transforma um texto uma peça única, diferente de outros. É o estilo pessoal impresso na obra.Se olharmos bem de perto, os dramas e as comédias falam sempre da mesma coisa: do homem e de seus eternos conflitos. Como contar essas mesmas velhas histórias de maneira original? Aí que entra o artista que parte sempre de uma idéia. Como nos ensina Doc Comparato, há seis campos de idéia onde os autores podem buscá-la. IDÉIA SELECIONADA Ela está guardada no íntimo do autor, faz parte de sua memória e vivência. É de natureza estritamente pessoal. Nosso pensamento vai ao passado remoto ou recente buscar a idéia selecionada, aquela que não está atrelada à outra pessoa ou a outros fatores distantes do universo do autor. IDÉIA VERBALIZADA Uma pessoa nos conta um caso, faz um comentário. Sem pedirmos licença, ouvimos uma história no ponto de ônibus. Eis aí a essência da idéia verbalizada. IDÉIA LIDA É a idéia que nasce quando estamos lendo um jornal, uma revista, um livro, etc. A partir dela nos inspiramos. IDÉIA TRANSFORMADA Um autor assiste a um filme, a uma peça teatral ou lê um romance e não apenas se inspirar – quer transformar e adaptar aquela história. O plágio é a transcrição de uma obra toda ou de partes dela, sem que se revele este ato. O estudioso Abelardo de Carvalho nos fala de Carmem, novela original de Merimée, que começou a ser transformada por George Bizet, que compôs uma ópera em cima da história da cigana. IDÉIA SOLICITADA Um produtor pede ao autor que crie um roteiro em cima de uma idéia que ele oferece – trata-se de um trabalho por encomenda. IDÉIA PESQUISADA Ás vezes produtores, ou mesmo autores, se dão conta, por meio das pesquisas, da existência de vácuos no mercado de criação. Exemplos: há mais de 10 anos que Hollywood não lançava um filme catástrofe, a TV Globo nunca teve uma atriz negra como protagonista em suas novelas. Se existe uma falta, provavelmente, haverá um demanda. Assim nasceram “Titanic” e “Da cor do pecado”.
Fonte:http://pt.shvoong.com/social-sciences/communications-media-studies/1649581-roteiro-teledramaturgia-id%C3%A9ias-r%C3%A1dio-tv/

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Segunda-feira, 24 de Novembro de 2008

"Pensamentos Clownolescos"


[...] E brincamos com o ridículo,
Com nossa infância resguardada em tempos de cólera.
Num sorriso tímido e imperfeito
as cores vão surgindo através do véu da realidade.
E quando menos percebemos,
a luz da fantasia invade o nosso ser
E aprendemos que nunca é tarde pra ser melhor.
O que acontece,
é que com o passar dos anos
vamos desaprendendo a ser crianças.
E é aí que percebemos:
-Estamos perto do fim!

[Souza Heiras]


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Sábado, 22 de Novembro de 2008

De Vinícius...

Ontem estava eu na casa Ê. Um bar alternativo de Guaratinguetá. Em meio à conversas e música pego um livro de Vinícius de Morais" Jardim Noturno" E me deparo com esta linda obra. Me apaixonei. Vale a pena postar!

O Haver
Vinicius de Moraes

Resta, acima de tudo, essa capacidade de ternura
Essa intimidade perfeita com o silêncio
Resta essa voz íntima pedindo perdão por tudo
- Perdoai-os! porque eles não têm culpa de ter nascido...

Resta esse antigo respeito pela noite, esse falar baixo
Essa mão que tateia antes de ter, esse medo
De ferir tocando, essa forte mão de homem
Cheia de mansidão para com tudo quanto existe.

Resta essa imobilidade, essa economia de gestos
Essa inércia cada vez maior diante do Infinito
Essa gagueira infantil de quem quer exprimir o inexprimível
Essa irredutível recusa à poesia não vivida.

Resta essa comunhão com os sons, esse sentimento
Da matéria em repouso, essa angústia da simultaneidade
Do tempo, essa lenta decomposição poética
Em busca de uma só vida, uma só morte, um só Vinicius.

Resta esse coração queimando como um círio
Numa catedral em ruínas, essa tristeza
Diante do cotidiano; ou essa súbita alegria
Ao ouvir passos na noite que se perdem sem história.

Resta essa vontade de chorar diante da beleza
Essa cólera em face da injustiça e o mal-entendido
Essa imensa piedade de si mesmo, essa imensa
Piedade de si mesmo e de sua força inútil.

Resta esse sentimento de infância subitamente desentranhado
De pequenos absurdos, essa capacidade
De rir à toa, esse ridículo desejo de ser útil
E essa coragem para comprometer-se sem necessidade.

Resta essa distração, essa disponibilidade, essa vagueza
De quem sabe que tudo já foi como será no vir-a-ser
E ao mesmo tempo essa vontade de servir, essa
Contemporaneidade com o amanhã dos que não tiveram ontem nem hoje.

Resta essa faculdade incoercível de sonhar
De transfigurar a realidade, dentro dessa incapacidade
De aceitá-la tal como é, e essa visão Ampla dos acontecimentos, e essa impressionante
E desnecessária presciência, e essa memória anterior
De mundos inexistentes, e esse heroísmoEstático, e essa pequenina luz indecifrável
A que às vezes os poetas dão o nome de esperança.

Resta esse desejo de sentir-se igual a todos
De refletir-se em olhares sem curiosidade e sem memória
Resta essa pobreza intrínseca, essa vaidade
De não querer ser príncipe senão do seu reino.

Resta esse diálogo cotidiano com a morte, essa curiosidade
Pelo momento a vir, quando, apressada
Ela virá me entreabrir a porta como uma velha amante
Mas recuará em véus ao ver-me junto à bem-amada...

Resta esse constante esforço para caminhar dentro do labirinto
Esse eterno levantar-se depois de cada queda
Essa busca de equilíbrio no fio da navalha
Essa terrível coragem diante do grande medo, e esse medo
Infantil de ter pequenas coragens.

15/04/1962
A poesia acima foi extraída do livro "Jardim Noturno - Poemas Inéditos", Companhia das Letras - São Paulo, 1993, pág. 17.


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Por segundos


Monólogo de uma prostituta
Souza Heiras

Ele tinha passado com passos tímidos.
A calça riscada de giz,
a camisa desenhando ângulos com o cinto
E um olhar...
Ah! Aquele olhar...
Se eu tivesse o poder de congelar os minutos
aprisionava aquele olhar para sempre.
Nunca
Ninguem tinha cravado os olhos em mim daquele jeito.
Sem censura,
sem reprovação,
sem delatar os pudores ou condenar à pecados minha conduta.
O que é preciso para acorrentar o coração de Luana?
Um maço de cem notas?
Um xale português de mortuária?
Uma caixa de chocolates suiços?
[...] A tolice do homem é mesmo de dar náuseas!
Mas quem é uma mulher de bilhar e botecos
de meia lâmpada,
ou das esquinas de luzes apagadas?
Porque olham assim com estes olhos de condenação?
Sim, se o dedos não são apontados, os olhares é que seguem
o curso do tribunal.
Olhem a madalena do subúrbio!
A mulher dos mil homens!
Porca!
Infame!
Boca de batom vermelho!
Libélula do abajur de sanguínea!
O amor tem dessas coisas tolas...
Quem diria que ele pudesse pousar sua atenção em mim?
como um prego nos pulsos,
como uma tatuagem que rasga e sangra a pele
ao mesmo tempo em que a rosa é desenhada.
Não foi um minuto,
nem uma hora.
Toda a conquista aconteceu em segundos.
Eu parei
Ele silenciou
E todo o mundo aconteceu.
Numa febre convulsiva
Um engasgo entalado
E por um segundo
...A vida toda parou!
A vadia dos cantos,
a vadia que cobra por amor.
A nojenta,
asquerosa,
imunda e perversa
estava enjaulada para sempre em um amor de Platão.
Os passos se deram pausados
e ele se escondeu na timidez da fuga.
Hoje me encontro aqui rendida àqueles abraços que nunca senti.
Aos lábios que nunca beijei.
Aos sonhos que jamais me adormeceram.
O que me resta,
são os homens da jogatina.
Os adúlteros de fim de expediente
Os boêmios de prostitutas baratas.
E neles
Quem me trazem o coração em papéis de reais,
tento ao menos amenizar os meus sentimentos retidos por aquele homem
que unicamente amei.
Sinto os seus lábios no sedutor das dez horas.
Seus braços no infame das madrugadas vazias.
Seu corpo na cobiça do mal amado.
Ele passou
Eu o olhei
O perfume cítrico ficou
E só.
Hoje só.
E aquele olhar de segundos!
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Quarta-feira, 19 de Novembro de 2008

Vai-se o homem


Monólogo sobre Machado de Assis


Personagem:
Um jovem do século XXI

Espaço desprovido de
cenário


(Inicia-se a música “O Patrão nosso de cada dia” de secos e molhados. Entra o Jovem, se posiciona no centro do palco, luz de foco somente nele. Abre o livro, a música diminui, inicia o monólogo dramaticamente).

Vai se o homem, restam suas virtudes.
O que diremos daquele negro do morro agitado, das ruelas sem fim, do carioca de lavadeira, amparado por mãos manchadas à tinta?
Que diremos nós, do gaguinho, machadinho, epilético e trabalhador com tabuleiro de doces ao colo?
Sim, vai se o homem, restam suas virtudes.
E qual a bico de penas, escrever uma linda história de popularidade e sensibilidade que perdura por séculos.
Bendito o homem que se perpetua no tempo, qual uma jangada em temporal, aberta às ressacas, ao mar bravio, às borrascas perigosas. Avante, sempre em frente segue. E quanto mais se delonga. Mais é amado.
O nosso machadinho querido, dos pés descalços do livramento, do aluno de francês do São Cristóvão, das misteriosas bruxarias do Cosme Velho. Bruxo? Qual! Em Machado não cabia alquimia, tudo era real, transparente como Brás Cubas. Nele o sonho descansava nos papéis e deleitava nas brancas ásperas páginas. Uma pitada de mistério, é claro, pois todo grande homem deve deter pra si uma centelha de dúvida.
E como eram lindas suas mulheres, Capitu dos olhos de Ressaca, Helena dos seus romantismos e Carolina Xavier de Novaes, a portuguesa do seu amor.
É de amor que vivemos, é por amor que vivemos, é no amor que vivemos. Toda causa há a certeza dos amantes, e foi por este sentimento nobre, que Joaquim Machado de Assis delatou o seu tempo, defendeu sua negritude, acusou a política que bailava em torno de si.
Por amor, nos legou suas histórias, seus contos, suas poesias e seus teatros. Por amor, nos deixou provar o gosto das desesperanças do homem para entendermos nossas desvirtudes.
Por amor nasceu brasileiro e se fez brasileiro, pois uma coisa é nascer nesta abençoada terra de pau Brasil, outra é adotá-la sem reservas como berço para resguardar as memórias.
Vai se o homem, restam suas virtudes!
Machado como a lua, também se armou de fases. A primeira, o romancista incontrolável com suas ressurreições e histórias de meia noite. Na segunda, com seu realismo indomável, extrapolável de casmurrices e Aires.
Que diremos nós?
A solução é abraçar os seus livros como filhos ternos, niná-los na brandura de nossos sossegos e conformar com as dúvidas. Pois Machado, como o mundo, jamais será entendido. E entender pra que? Se o gosto da aventura está na dúvida?
A certeza é que já se passaram cem anos, e ele está mais forte que nunca. Bendito o homem que sabe se deixar para a posteridade. Bendito o morro do livramento! Bendita a Rua do Cosme Velho! Bendito o Rio de Janeiro, Bendito o Brasil! Bendito o mundo todo, que pode hoje erguer a voz, olhar para o horizonte e dizer. Felizes somos nós que conhecemos Machado de Assis.

(Eleva se a música do início)



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DEPOIS QUE ELES SE VÃO



“Monólogo para um fim de noite de um patrocinador da boemia”

Souza Heiras

Triste é quando todos se vão e é só,
silêncio!
O dia se abre às sete da noite e se fecha às seis da manhã.
Dia é quando as palavras se encontram e a música se delonga no ouvido dos namorados, amantes,
sós!
Quando os gatunos se reúnem em esquinas e melodiam bemóis e sustenidos,
quando os boêmios lustram os sapatos negros
qual à olhares ciganos
e cobrem a grisalha cúpula de chapéu panamá.
Dia é quando nos berços de Eros
Duas carnes se entrelaçam à suores e sussurram melodramas.
... [Ó dia escurecido pelo eclipse da noite morta!].
E são raros os dias que se prevalecem
na madrugada.
Tango
Bolero
Fósforo frio e cerveja. [...] Licores dos deuses humanos [...]
“Agridoce bebida!”
E há quem dirá com submissão: Apologia!
Mas a noite tem mesmo um específico incenso...
Entre os dedos longos,
azuis fumaças de cigarro que carimbam as camisas alvas e
só saem com os cantos das lavadeiras:
-Na quebrada da soleira quem diria...!
É triste quando todos se vão e é só,
silêncio!
[Quem me dera que eu fosse o pó da estrada
E que os pés dos pobres me estivessem pisando...

Quem me dera que eu fosse os rios que correm
E que as lavadeiras estivessem à minha beira...

Quem me dera que eu fosse os choupos à margem do rio
E tivesse só o céu por cima e água por baixo...

Quem dera que eu fosse o burro do moleiro
E que ele me batesse e me estimasse...

Antes isso que ser o que atravessa a vida
Olhando para trás e tendo pena
{Pessoa}]

Pra onde se foram os queixumes das duas da tarde?
Cadê as pilhérias das sete da manhã?
Tudo se vai no ralo da noite escura!
Buraco negro enfeitado por móbiles pontiagudos.
Perguntaram-me certa vez:
E
Existem noites que por aqui não passam ninguém?
... Sim tem!
....Na verdade, sempre aparece alguém!
...Triste é quando todos se vão, e só resta solidão!
Os patrocinadores da boemia que o digam.
Análise talvez seja necessário
Divã.
Lâmpada incandescente no abajur lilás!
(...risadas...) Elis Regina. Uma nostalgia...
E roda noite negra
Baila nas saias universitárias
Brinca nas boates de sapatilhas.
Quando eu era menino
Tinha somente um sonho
O de ser
Feliz.
E cresci aprendendo com Guimarães Rosa:
-Felicidade menino, se encontra em momentinhos de descuido!
Cresci mais ainda
E tomei audácia e adaptei:
- Felicidade moço, se encontra nestas quatro paredes
antes de o galo dar o último anúncio!

[...]Se é pra falar da solidão de ter uma noite onde os homens e mulheres se encontram, falarei então de mim e do meu eu invisível. Pois aqui nessa parede de seis dimensões balbuciarei só para os noturnos escutarem. Um copo acima do guardanapo, três cigarros amassados embaixo do vidraceno cinzeiro e um papel toalha a bic de poesias. Piano ao canto, paredes verdes, cadeiras desinformes. Aqui onde a noite é só poesia, onde só se há ouvidos para o violináceo acordeom e frenético tango. Se é para falar disto tudo, o meu eu está aqui gritante, desassossegado, despido e inerte. Entregue aos dados para sortearem minha túnica[...]

Vamos,
entrem na roda comigo
Desmascarem a pele do vale
Não tenham vergonha.
Pois aqui terão doces ósculos!
Ê casa
Ê vida!
Ê sonhos!
Ê Gioconda da toalha de rendas.
Ê...
Quando a casa fica vazia
Ficam vazios os recônditos.
Copo com batom vermelho manchado
Cadeira fora do ângulo
Vinho deitado na mesa branca
Chãos com papéis amassados.
Eu amassado...
...Queria gritar aos quatro cantos do mundo
...A vida sem boêmia é tosca
...É impotente!
...É perversa!

Quando eles se vão
Quando todos se vão...
Leoni fica fraco
Bethânia fica rouca
E Gal fica muda.
Um eco
Que se vai.
Que se perde.
Quando todos...
Quando eles se vão só resta
Saudade
Casa
Ê
Vira
Caverna.
Vácuo!
Uma acústica perdida!
Os papéis
Os sonetos
E o frio
Da quietude...

A próxima noite chega!

...

[sinos finais.]
[pós-palmas] “Quando mais civilizados se tornam os homens, mais eles se tornam atores. Querem-se exibir e fabricar uma ilusão”. KANT





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Sábado, 18 de Outubro de 2008

Eloá

Com a rotunda escura
Platéia vazia
e só silencio...
Uma dor surge no peito
o personagem se vai no lavabo
com o lápis escuro dissolvido
em toalha úmida e fria.
e resta só o homem
a sentelha esquecida
no chão frio da crueldade!
E quando nem a arte poder gritar por socorro?
Ai de nós meros mortais!
Jogados à sorte do acaso.
E ela
uma outra atriz nesse palco
desliga aos poucos suas luzes
a ribalta tomou cores cinzas
e ...
... Desce a cortina em pausas.
Onde está o dramaturgo?
Pra onde foi o diretor?
A cenografia está suave
e o palco
junto com a poeira das cadeiras
só!
...
Choro no subtexto
nesse pretexto confuso
convexo
concreto
Por assim vai,
Vai menina
Aqui
Acolá
Eloá!

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Sábado, 11 de Outubro de 2008

21 dicas para quem quer ser um artista contemporâneo

Adorei esse email recebido por um dos integrantes do grupo de discussão do Fórum Teatro no Yahoo. Repasso em característica de reflexão. O mais interessante é que a gente percebe! Nossa, é assim mesmo! Vamos lá!


21 dicas para quem quer ser um artista contemporâneo


1. Monte uma cena toda em preto e branco, utilizando apenas alguns detalhes destoantes. (Outra dica pra não errar: acessórios vermelhos)

2. Termine o espetáculo assim como ele começou, pra passar uma idéia de ciclo.

3. Apoie sua montagem num jogo, de preferência num tabuleiro de xadrez, onde cada ator represente uma peça. Claro, conclua com xeque-mate.

4. Nomeie seu espetáculo de `Processo' e não o termine NUNCA!

5. Nomeie seu espetáculo de `Performance', mesmo não sabendo o que isso é direito.

6. Utilize uma mesa que se transforme em tudo; ora cama, ora porta, ora parede… e mesa mesmo.

7. Nada de figurinos pesados: todo mundo de cinza e descalso.

8. Monte um clássico e faça a readaptação no nordeste ou na favela.

9. No cenário, o chão deve ser de barro, areia, mato ou café. Algo simbólico e que suje bastante.

10. Excite os 5 sentidos do público (ou 6, se conseguir), embora isso se resuma a acender um incenso, jogar água na platéia, servir vinho, encostar numa parede e mandar tomá-los no cú.

11. Misture dança, teatro, música e artes plásticas e não faça nenhum dos 4.

12. Coloque algum aparelho elétrico ligado. De preferência uma cafeteira.

13. Diga que todo o seu processo com os atores se baseou em view point.

14. Convide alguém famoso pra dizer que indica a peça no programa, mesmo sem ele nunca ter assistido.

15. Monte em arena e delimite o espaço público-platéia com giz. Ah, se quiser sofisticar, filme e exiba as reações do público ao vivo num telão.

16. Ensaie seus atores com yoga, karatê, ginástica olímpica, box e meditação. Menos com teatro.

17. Crie maneiras de interagir com o público. Entregue fones de ouvido tocando um lounge bem blasê e/ou alguém texto de auto-ajuda, enquanto os atores fazem partituras de movimento.

18. Crie a sua própria trilogia.

19. Coloque algum ator fazendo um depoimento pessoal no microfone.

20. Pra ser contemporâneo, tem que ter secreção. Peça para o ator suar bastante ou cuspir em cena.

21. Por fim, limite o número de espectadores, de preferência 3, e lote todos os dias.É infalível!

MANUAL DO ARTISTA CONTEMPORÂNEO, de Felipe Barenco >> O guia contemporâneo mais completo da atualidade para quem quer ser um artista nos dias de hoje. Em breve nas livrarias!


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100 anos da morte de Machado de Assis

29 de setembro de 1908 - 29 de setembro de 2008



O artigo abaixo, a respeito da morte de Machado de Assis, foi publicado por Euclides da Cunha em 30 de setembro de 1908, no “Jornal do Comércio”.


A última visita
EUCLIDES DA CUNHA
Na noite em que faleceu Machado de Assis, quem penetrasse na vivenda do poeta, em Laranjeiras, não acreditaria que estivesse tão próximo o desenlace de sua enfermidade. Na sala de jantar, para onde dizia o quarto do querido mestre, um grupo de senhoras – ontem meninas que ele carregara no colo, hoje nobilíssimas mães de família – comentavam-lhe os lances encantadores da vida e reliam-lhe antigos versos, ainda inéditos, avaramente guardados em álbuns caprichosos. As vozes eram discretas, as mágoas apenas rebrilhavam nos olhos marejados de lágrimas, e a placidez era completa no recinto, onde a saudade glorificava uma existência, antes da morte. No salão de visitas viam-se alguns discípulos dedicados, também aparentemente tranqüilos. E compreendia-se desde logo a antilogia de coração tão ao parecer tranqüilos na iminência de uma catástrofe. Era o contágio da própria serenidade incomparável e emocionante em que ia a pouco e pouco extinguindo-se o extraordinário escritor. Realmente, na fase aguda de sua moléstia, Machado de Assis, se por acaso traía com um gemido e uma contração mais viva o sofrimento, apressava-se a pedir desculpas aos que o assistiam, na ânsia e no apuro gentilíssimo de quem corrige um descuido ou involuntário deslize. Timbrava em sua primeira e última dissimulação: a dissimulação da própria agonia, para não nos magoar com o reflexo da sua dor. A sua infinita delicadeza de pensar, de sentir e de agir, que no trato vulgar dos homens se exteriorizava em timidez embaraçadora e recatado retraimento, transfigurava-se em fortaleza tranqüila e soberana. E gentilissimamente bom durante a vida, ele se tornava gentilmente heróico na morte...

Mas aquela placidez aguda despertava na sala principal, onde se reuniam Coelho Neto, Graça Aranha, Mário de Alencar, José Veríssimo, Raimundo Correia e Rodrigo Otávio, comentários divergentes. Resumia-os um amargo desapontamento. De um modo geral, não se compreendia que uma vida que tanto viveu outras vidas, assimilando-as através de análises sutilíssimas, para no-las transfigurar e ampliar, aformoseadas em sínteses radiosas – que uma vida de tal porte desaparecesse no meio de tamanha indiferença, num círculo limitadíssimo de corações amigos. Um escritor da estatura de Machado de Assis só devera extinguir-se dentro de uma grande e nobilitadora comoção nacional. Era pelo menos desanimador tanto descaso – a cidade interira, sem a vibração de um abalo, derivando imperturbavelmente na normalidade sua existência complexa, quando faltavam poucos minutos para que se cerrassem quarenta anos de literatura gloriosa... Neste momento, precisamente ao enunciar-se este juízo desalentado, ouviram-se umas tímidas pancadas na porta principal da entrada. Abriram-na. Apareceu um desconhecido: um adolescente, de 16 a 18 anos no máximo. Perguntaram-lhe o nome. Declarou ser desnecessário dizê-lo: ninguém ali o conhecia; não conhecia, por sua vez, ninguém; não conhecia o próprio dono da casa, a não ser pela leitura de seus livros, que o encantavam. Por isto ao ler nos jornais da tarde que o escritor se achava em estado gravíssimo tivera o pensamento de visitá-lo. Relutara contra essa idéia, não tendo quem o apresentasse: mas não lograra vencê-la. Que o desculpassem, portanto. Se não lhe era dado ver o enfermo, dessem-lhe ao menos notícias certas do seu estado. E o anônimo juvenil – vindo da noite – foi conduzido ao quarto do doente. Chegou. Não disse uma palavra. Ajoelhou-se. Tomou a mão do mestre; beijou-a num belo gesto de carinho filial. Aconchegou-o depois por algum tempo ao peito. Levantou-se e, sem dizer palavra, saiu. À porta José Veríssimo perguntou-lhe o nome. Disse-lho.

Mas deve ficar anônimo. Qualquer que seja o destino dessa criança, ela nunca mais subirá tanto na vida. Naquele momento o seu coração bateu sozinho pela alma de uma nacionalidade. Naquele meio segundo – no meio segundo em que ele estreitou o peito moribundo de Machado de Assis – aquele menino foi o maior homem de sua Terra. Ele saiu – e houve na sala há pouco invadida de desalentos uma transfiguração. No fastígio de certos estados morais concretizaram-se às vezes as maiores idealizações. Pelos nossos olhos passara a impressão visual da Posteridade.**********


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Terça-feira, 7 de Outubro de 2008

E Cinderela perdeu a voz!

A Cia de teatro experimental de Machado / MG "Livro e Ribalta". Tem a honra de apresentar "Cinderela!". Uma peça muda que faz com que os adultos viagem nos recônditos de suas lembranças infantis e resgatem uma das mais belas fábulas infantis. Para a criança que assiste, a peça promete interagir e contagiar com uma linguagem corporal riquíssima de uma maneira bem engraçada. Cinderela é uma peça muda, onde 5 clowns abrem um baú que roubam e descobrem a história em meio de tantos livros guardados. Assim sendo, eles passam a contar a fábula e também a colaborar com ela por meio de ações que interferem no enredo. Com roteiro e direção de Souza Heiras.
Prepare-se para morrer de rir, emocionar e se divertir.
Cinderela está aí, de volta, pra nós que as vezes esquecemos de
sonhar!


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Sábado, 4 de Outubro de 2008

UMA PEÇA PARA MACHADO DE ASSIS

No centenário de Machado de Assis eu preparei um trabalho; dramaturgicamente falando que remonta a essência machadiana e sua importância na literatura brasileira. Com o romance mais belo e mais lido de todas as suas obras, Dom Casmurro, é revisado pelo próprio autor que discute com Escobar e Bentinho a razão de todas dúvidas e possibilidades que a Casmurrice de Bentinho apresenta. A peça "O - Dom- de Assis " brinca com esta possibilidade de levar o próprio autor do texto ao palco e deixar ainda mais confusa todas as dúvidas que temos com relação à homossexualidade dos amigos, os interesses da menina dos olhos de ressaca e a traição ou não de Capitu. É um roteiro que encara, viaja, traspassa, e relata a quintessência realista de nossa terra Brasileira. Com apenas cinco atores o texto valoriza grande parte dos diálogos contidos na obra original e mescla com a dramaturgia de Souza Heiras. Uma bela peça que realmente emociona!!!!!!

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Quarta-feira, 6 de Agosto de 2008

O bom filho a casa retorna

Amigos, estou de novo neste espaço que é meu. Rs! É, fiquei alguns meses sem postar nada aqui, pois eu estava em um processo de mudanças. Sim, agora respiro novos ares; Mineiros eu diria. Sim, estou com um novo trabalho pela frente e em uma nova cidade, que na verdade não tem nada de nova. Machado. Foi onde me criei e teci meus primeiros sonhos, hoje volto estrangeiro e trago na bagangem, muito aprendizado. Manifesto que retorno com muita garra, outros horizontes, novos desafios. Compartilho com todos este desejo de mudança e conto com a colaboração de todos artista para mais uma jornada nesta empreitada da vida. Muita merda pra gente!!!!!

Segunda-feira, 9 de Junho de 2008

Monólogo à meia luz


Parai. ...Parai Senhores com esta melodiosa sinfonia. Já não bastam os junhos de enamoramentos? Parai! Estou farto de tanta poesia. Parem com esta canção que lembram amores esquecidos, juras afloradas, regaços de peitos enfim. Estou farto de tantos sonetos, rondós e vilancetes. Meu peito agora nessa hora quarta está a suar lascividade. Nada para boemia farta ou buquês de rosas champanhes.
Estou com um grau elevado, que adentra minhas veias e grita por promiscuidade. Cansei de ser poeta, puritano! Quero agora é ser vil, decadente! Meus orgãos abaixo que quase encaram a terra, gozam por damas-da-noite. Meninos de músculos esguios ou camisa de vênus enxarcadas por um mel agridoce!
Ah! Como é belo ser menino, distante destas afrontas de beijos comprometidos. Quero a liberdade qual Dionísio, me fartei de ser Corifeu, Orfeu ou qualquer outro Deus que me apontam perjuros.
Quero seios de Guanabaras, quero coxas de colinas. Pêlos longos e frios, pele lisa amendoada. Estou farto de amor por amor só. Hoje só quero sexo, sem aquelas frases ditas à meia noite: Um te amo pra fim de madrugada.
Não! Hoje quero o amor ereto, que adentra um corpo virgem e antes de ouvir versos, ouvirá sussurros gementes ao pé do ouvido, ou quem sabe aos quatro cantos do mundo. Um pelo amor de Deus às dores, ao sangue maculando o estampado vestido estirados embaixo de nossas garras.
Não quero abraços melancólicos. Quero qual gangorra, subir e descer em uma viril carne masculina ou glúteos ardentes de colombina. Ah, parem com esta apaixonante poesia. Minha juventude não suporta tanto apreço. Quero rock, guitarras de pés à pes. Um juntar de seis e nove, um deslizar de lábios em orgãos que o dia esconde à paizana.
Quero mordidas à ósculos frios.
Quero velocidade à andares insenssantes.
Quero Luz à meia vela.
E quando tudo estiver perto do fim, quando a dor já ferir meu corpo e meu cansaço pedir parada, embalsamarei o corpo escolhido com minha seiva em mel. Deitando à face ao céu testemunhando orgasmo desferido. E assim provarei que estou farto de tanto ouvir poesias!
Serei para sempre Arlequim!

Quinta-feira, 5 de Junho de 2008

O artista itinerante


Chegou a hora amigos. Dar uma descansada, sentar meu pés em terras natais e sonhar na calmaria. Lutar a cada dia e vislumbrar sempre o futuro. Chegou a hora de dormir na cama onde me criei, comer a comida da mãe e rever os antigos amigos. Chegou a hora do abraço terno e caloroso dos irmãos, da risada gostosa dos tios e do torresmo com agu. Chegou a hora das pessoas me falarem: " -Nossa Anderson, como você cresceu!". É, percebi que sou artista itinerante. Meus pés coçam e minhas pernas ardem, não se contentam com o permanente. Na bagagem levo muitas lembranças, muitos amigos eternos e muitos momentos felizes. De tudo que aprendi, creio que a melhor lição foi ser eu mesmo, aprender a me amar como sou e me fazer respeitar em qualquer lugar. Os sonhos? -Ah, estes não deixo! Jamais, eis minha única responsabilidade na terra!
Preciso voltar a estudar, descansar meu corpo cansado vitimado por tantos problemas, um peito artista precisa de ócio para a imaginação fluir e ultimamente estou muito agitado. Estou precisando de um pouco de conforto, de meu quarto gostoso, de minha comida mineira saborosa e da minha cidade limitada em propagar a arte, tudo é desafio, nunca foi diferente comigo.
Sou artista itinerante, de pé no chão e alma no céu. A todos deixo meu abraço, meu sincero agradecimento. Tudo que é nosso realmente, não se vai para sempre, os amigos, aqueles verdadeiros, não desaparecerão. Pois a verdadeira amizade é provada na distância.
Um beijo na alma, sou grato por ter dividido uma parte de minha vida com vc. Sejamos felizes!...

Quinta-feira, 29 de Maio de 2008

MONÓLOGO PARA DEPOIS DA CRUZ



Isso, uma passada compassada de unguento, um fármacón especial. As mãos, nas chagas largas que escorre líquidos de nossos pecados inúmeros na terra. Jaz em meu braço como uma rama de trigos verdes para o pão… Mas o pão foi na noite passada, quando ao elevar mãos sacro-santas, beijastes as outras em pés. Isso um pouco mais de vento que sobe nas pedras que tropeçavas outros ao subir. Um vento que anuncia a manhã esperançosa e triste. Um vento de corvos que em uma hora atrás circulavam teu corpo sedento pela última elevação do diafragma e, cantastes: -Pai em tuas mãos entrego meu espírito! Em tuas mãos… Pai novamente… Pai… Um pouco mais de perfume, um tecido limpo, uma túnica que mancha meu colo com teu avermelhado suor e só silêncio paira. (Com a voz, barulho de vento) Só mais um pouco de bálsamo, um óleo doce de oliva. Um ser infanto em meu colo, olhos cerrados que antes eram espelhos do mundo.
A noite era fria e meu colo se fez quente quando a estrela D'alva se fez anunciar. Glória no céu, na terra a paz paire nos homens, ele nasceu. Hoje tu nasces para a outra vida que é tua de verdade. Ficas comigo só mais esta noite… Filho… Lembras daquela canção debaixo do salgueiro?... Era linda como o sol nascendo no horizonte de teu pai. A maçã a mais gostoza e Tu com os dedos melados com os doces de leite de cabra. Quer que eu cante de novo pra ti? Eu sei que estais cansado, o dia foi agitado, a prisão infernal e os homens foram mals.. Sei de tudo isto filhinho, por isto, não vou te incomodar nesse sono trino. Sonhes com aqueles dias que fomos felizes em Nazaré. Lembras de Bia, de Judite, de Sara e Benjamim. Tenho certeza que Ana choraria muito, mas nessa hora, eu sei, nem precisa mais sofrer por ti, pois meu amor é maior que qualquer sofrimento e minha certeza de tua vitória é muito maior que qualquer coroa de espinhos.
A taça estava tão cheia de veneno, meu anjo, os olhos deles foram ferozes, eu vi, pois tu estavas de olhos baixos como sempre, um cordeiro ao matadouro…
Dormes agora, mas não esquecas de tua mãe, só tenho medo de ter te amado muito mais que meu próprio Deus, mas é a mesma coisa não é? Tu dizias que era, Gabriel também disse naquele dia que morri de medo. Nunca te contei, mas fui surpreendida por um estado de êxtase!: -Eu? Não posso, sou nova e não conheço varão… -Faça se em mim o que nosso Deus mandar, pois sou só escrava, uma borralheira, uma serviçal, ele é patrão e Senhor… (Silêncio prolongado)
Um pouco só, isto, uma passada compassada de unguento, um farmacón especial. As mãos, nas chagas largas que escorre líquidos de nossos pecados inúmeros na terra. Jaz em meu braço como uma rama de trigos verdes para o pão… Mas o pão foi na noite passada. A noite depois foi tochas, beijo do teu grande amigo, calabouço e moedas. A negação de Pedro!... O resto, só nós. Tecido de Verônica com teu rosto em relevo perpetuado, os ais e as batidas no peito das mulheres, e João... Ele está aqui, atrás de mim... Não me deixou, como você tinha pensado que seria continua firme como um carvalho, pois ganhou mais uma mãe, ele e os outros que fugiram quando te viram…
Teus pulsos estão tão profundos, tuas veias saltadas e tuas costas cheias de sulcos. Prometo que não vai arder. Só perfumar. Sua mãe nunca te quis mal, não seria agora no momento póstumo.
Agora dorme junto com a gratuidade de Arimatéia, dorme que sua mãe precisa ir!


Autor: Souza Heiras - Maio de 2008

Terça-feira, 27 de Maio de 2008

Ópera do malandro

Esta semana eu li o roteiro de a "Ópera do malandro". Uma comédia fatalista sem igual, cheia de ideías que apontam a subversividade, a classe política e proletariada da época de 40 e a qualidade exploratória das mulheres famosamente chamadas de "da vida". Vale a pena conhecer esta obra ímpar de Chico Buarque de Holanda e deparar com um artista anunciane e denunciante das mazelas do nosso país que teve seus momentos delicados na ditadura militar. Posto abaixo um relato da peça..


Divirtam-se. Ah, hj estou com um pouquinho de preguiça, mas não podia deixar de passar por aqui. Segue-se..


SINOPSE
Escrita em 1978, a peça retrata através da época Getulista os
mecanismos da expansão capitalista no Brasil. Identificando o modo como isso se
estrutura através da malandragem, Max Overseas, malandro carioca e bom vivant,
acaba sucumbindo por não acompanhar esse processo de modernização.
O musical “Ópera do Malandro”, de Chico Buarque de Hollanda, é uma adaptação das obras “Ópera dos Três Vinténs”, de Bertolt Brecht e Kurt Weill; e “Ópera do Mendigo”, de John Gay.
Chico transpôs a trama para o Brasil, mais especificamente, para a década de 1940, quando o país vivia o período do Estado Novo, o regime ditatorial implantado pelo presidente Getúlio Vargas.
Ao invés dos ambientes aristocráticos ingleses e dos cabarés alemães, a obra de Chico se passa na Lapa, famoso bairro boêmio do Rio, e que, nos anos 40, encontrava-se no início de seu processo de decadência. O que se vê em cena são malandros, prostitutas, contrabandistas, policiais corruptos e empresários inescrupulosos.
Na época da primeira montagem, em 1978, o diretor Luiz Antonio Martinez Correia declarou que o espetáculo “é uma caricatura, um retrato da burguesia brasileira”.A peça faz uma crítica à sociedade daquela época e também aborda temas importantes e polêmicos, como contravenção, corrupção policial, prostituição, jogo, contrabando, exploração, preconceito, ganância e a influência norte-americana sobre a cultura brasileira.
Baseado em: "Ópera dos Mendigos" (John Gay)"Ópera dos Três Vinténs" (Bertolt Brecht / Kurt Weill)

Autor:Chico Buarque
Direção: Luiz Antônio Martinez Corrêa
Trilha Sonora:Chico Buarque
Assistente de Direção: João Carlos Motta
Cenografia e Figurinos: Maurício Sette
Assistência de Figurinos: Rita Murtinho
Direção Musical a Arranjos: John Neschling
Iluminação: Jorginho de Carvalho
Direção Vocal Interpretativa:Glorinha Beutenmuller
Direção Corporal:Fernando Pinto
Elenco: Otávio Augusto (Max Overseas)
Marieta Severo (Teresinha)
Ary Fontoura (Duran)
Maria Alice Vergueiro (Vitória)
Tony Ferreira (Tigrão)
Elba Ramalho (Lúcia)
Emiliano Queirós (Geni)
Ivens Godinho (Barrabás)
Ilva Niño (Dóris Pelanca)
Cidinha Milan (Fichinha)
Neuza Borges (Shirley Paquete)
Maria Alves (Jussara Pé de Anjo)
Cláudia Jimenez (Mimi Bibelô)
Vander de Castro (Johnny Walker)
Paschoal Villamboim (Phillip Morris)
Ivan de Almeida (Big Ben)
Vicente Barcelos (General Eletric)
Elza de Andrade (Dorinha Tubão)
Nadinho da Ilha (João Alegre)

Vejam abaixo algumas fotos da montagem original da "Ópera", de 1978.






Fonte: http://musicaisbrasil.multiply.com

Quinta-feira, 22 de Maio de 2008

Brunno Almeida


Estes dias, mexendo e pesquisando na internet, descobri o blog de um talentosíssimo jovem chamado Brunno Almeida. Um neo-dramaturgo e diretor. Com um trabalho aflorado, gritante e violento ele mostra uma outra cara de teatro. Mais feliz fiquei quando consegui conversar com ele por msn. Não nos encontramos pessoalmente, mas sei que não demorará muito para acontecer.

A ousadia juvenil ainda é positiva, contrária à muitos pessimistas que dizem que nosso país não tem mais ator, escritor, artista de verdade. É claro que não participo dessa roda de pensamento. O que acontece é que estes esquecem que vivemos num planetinha redondo e que a todo momento gira, sem parar. É preciso acompanhar as mudanças, cada qual para seu tempo e de seu jeito.

O Brunno me surpreendeu por ter uma característica diferente, totalmente diferente da minha. Por isso eu acho a arte ao mesmo tempo divina, complicadamente estranha! Como pode algo, reunidor de tanta gente ao mesmo tempo ser confusamente diferente?

Fazer pontes no nosso meio e conhecer sempre pessoas diferentes sempre nos fortalece e solidifica nosso trabalho.

Para conhecer melhor o trabalho do Brunno, sigo com o link do seu blog que aproveito e indico para todos. Vale a pena conferir. Até mais...

http://brunnoalmeida.zip.net/index.html

Segunda-feira, 12 de Maio de 2008

Um drinque para dois



A Consciência Teatral Lisieux tem o prazer de apresentar mais este espetáculo. Com a Dramaturgia de Souza Heiras e direção de Goreti Lago, "Um drinque para dois" passeia pela noite boêmia de São Paulo no auge da década de 80 e embriagada de Bossa Nova e wiski apresenta os dois personagens: Helena e Marcus. Duas pessoas conflitantes que dinamizam em uma pura filosofia de início de madrugada. Um homem apunhalado pela sorte adversa sente a necessidade de mergulhar em um copo com alcool seu desepero e drama numa compassada esperança de entendimento.

Quando uma mulher experiente percebe a fragilidade de um ser acurralado na parede dos infortúnios não perde tempo em tirar vantagem do fato e acaba se fazendo de uma moralista detentora da verdade que se torna relativa. Um drinque para dois faz o homem pensar nas desgraças que todos os dias temos que deparar e perceber que no fundo não conhecemos ninguém, não obstante; nós mesmos.

Elis Regina convida a dançar e um martini desperta os fatos mais secretos guardados nos recôndidos da alma.

... Em breve

Uma vitrola, um som, batom e muita filosofia!

Quinta-feira, 8 de Maio de 2008

Poesia

"Entendo que poesia é negócio de grande responsabilidade, e não considero
honesto rotular-se de poeta quem apenas verseje por dor-de-cotovelo, falta de
dinheiro ou momentânea tomada de contato com as forças líricas do mundo, sem se
entregar aos trabalhos cotidianos e secretos da técnica, da leitura, da
contemplação e mesmo da ação. Até os poetas armam, e um poeta desarmado é,
mesmo, um ser à mercê de inspirações fáceis, dócil às modas e compromissos."



Carlos Drummond de Andrade

Sábado, 26 de Abril de 2008

Consciencia teatral Lisieux com um novo espetáculo.


A Companhia Teatral Lisieux está no processo de montagem de mais um novo espetáculo. "Máscaras", de Menotti del Picchia. Com uma dramaturgia de Souza Heiras, a investigação do roteiro e da proposta do mesmo adentra o cenário da Coméia dell'arte, resgatando sua essência, seu colorido, sua mágica que por volta do século XVIII (seu auge) abrilhantou o teatro italiano e francês. O texto é de um dos grandes poetas da corrente modernista, cuja naturalidade é de Itapira interior de São Paulo. É uma poesia fantástica que mostra o triangulo amoroso de Arlequim, Colombina e Pierrot, ambos personagens dos espetáculos venezianos da era que se iniciou no século XVI. Com uma trilha sonora de Chico Buarque de Holanda, o espetáculo acaba se tornando um singelo musical, colocando esse paralelo entre a música erudita e o samba de Chico. Um casamento que precisaremos experimentar para sentir o resultado. Máscaras brinca com a atitude do ator e de seu personagem, uma escrachada atitude do turbulento, do bufão, do inquieto. O artista se vê em meio a uma ação desnivelada, onde os exageros, o anti-realismo e anti-sentimentalismo imperaliza, se assim quiser passar realmente toda a essência da comédia italiana. Em Máscaras, é preciso que a platéia sinta com todas os sentidos a dinamica do romance, seja ele pelo perfume, pela textura, pela cor, pelo sabor ou pela sonoridade. É preciso agora aguardar o resulato e conferir mais este trabalho que com prazer estamos realizando.

Quinta-feira, 24 de Abril de 2008

Barbárie e Carnaval




Como estamos acompanhando ultimamente as manchetes de jornal impresso, radiofônico e televisivo, a crueldade e a notícia que abalou e emocionou o Brasil: O caso da menina Isabella. Mais uma vítima da violência urbana (e porque não familiar).Uma notícia que fez com que nós brasileiros em especial, percebêssemos o quanto estamos imunes à proteção humana e que o perigo sempre mora ao lado, não obstante no mesmo teto da nossa casa.


Já se passaram algumas semanas e o caso sempre à tona é motivo de especulação e burburinhos. Leigos no assunto sempre prontos a dar a ultima cartada e especialistas que em uníssonos proferem os mesmos discursos. Sente-se no seu sofá na frente da teve e vá zapeando. Não se fala mais em outra coisa, e o que antes era uma notícia caso de plantão jornalístico passou a ser com demasia um prato diário aos telespectadores. Não venho aqui me conformar ao fato, nem tampouco colocar panos quentes em uma situação que humilha, retarda e marginaliza nossa condição de cidadão. Não venho me entregar ao fato de que essa ocorrência deve ser vinculada em limitação ou tachada de banal. Não, é claro que não o é. Mas meu inconformismo é que fizeram de tudo isso um verdadeiro picadeiro, onde você compra seu saquinho de pipoca na entrada para mais tarde se deliciar com os números circenses que estão dispostos a te apresentar.


O caso Nardoni tornou se uma ferramenta de sucesso para a autopromoção. Lendo uma pesquisa ontem de um jornal, soube que depois daquele sábado trágico os programas jornalísticos subiram mais de 40% no ibope, o que com certeza terá mais uma margem de ascensão quando for reconstituído o crime prometido para esta semana no prédio London. Um glorioso merchandising em favor das emissoras e dos programas televisivos. Foco-me neste veículo de comunicação por ser mais explícito e acessível a toda população, mas não neutraliza outras formas que tornam este crime conhecido ao público. Soube também que apresentadores de teve estão apostando em presenças de pessoas da família Jatobá para falarem sobre o caso e juntos chorarem as lágrimas. Creio que os prêmios de teatro que se estendem pelo Brasil deveriam reconhecer estes profissionais, que por hora merecem os troféus. Uma palhaçada absurda, um desrespeito à família vitimada e à grande maioria que sinceramente comoveu com o caso. No pais do big Brother e Carnaval, (o futebol já foi à tempos) tudo vira enredo de escola de samba.


Outro fato que me incomoda é que estamos acostumados com a violência tangível e escancarada que é preciso que um fato deste aconteça para que percebamos o valor da integridade e da dignidade humana. Mas um homem que é esfaqueado em um assalto ou baleado em um semáforo não é vítima da mesma barbárie? Não é uma vida também que se vai? Uma família que vê seus filhos morrendo de fome, desabrigada, doente e sem educação também não é vítima da mesma atrocidade em que o país atua? Mas isso não vira mais noticia, e quando o famoso “Seu Zé” é assassinado, a gente pensa: -Foi até melhor, menos um para sofrer neste país.


Existe um texto da escritora Marina Colassanti que diz: “A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Mas não devia.” É a gente acostuma mesmo com tanta coisa, com mensalões e cuecas cofres, com cartões corporativos e com créus e créus, mas não se acostuma com a humildade, com a paz, com a saúde, com a boa alimentação. E com certeza, daqui um mês o nome Isabella cai no esquecimento e a gente segue a mesma roda vida, como cantava Chico Buarque, fica no esquece-esquece, e os outros que podem, promovendo como sempre fazem, em cima de outra barbárie ou tirando proveito de mais um fato trágico que por certo ocorrerá.


Souza Heiras,

22 Anos

Dramaturgo e diretor de teatro Campinas