
(Apaga-se o plano da alucinação. Luz no palco da
memória.)
PEDRO - Você continua com essa brincadeira?
ALAÍDE - Brincadeira o quê? Sério!
PEDRO - Não me aborreça, Alaíde!
ALAÍDE - O que é que você fazia?
PEDRO - Não sei. (rápido) Matava você.
ALAÍDE - (céptica) Duvido. Nunca você teria essa
coragem!
PEDRO - (olhando-a) É. Não teria.
ALAÍDE - Não disse? Mas se eu fugisse, se me
transformasse numa madame Clessi?
PEDRO - Sei lá, Alaíde! Sei lá!
ALAÍDE - (perversa) Ah! É assim que você me
responde? Pois fique sabendo...
PEDRO - O quê?...
ALAÍDE - (maliciosa) Não digo!
(Cantarola Danúbio Azul.)
PEDRO - (gritando) Agora diga. Diga.
ALAÍDE - (maliciosa) Digo o quê!
PEDRO - Então não falasse!
ALAÍDE - (provocadora) Você não acaba com esse
livro?
PEDRO - Mas, minha filha, comecei agora!
ALAÍDE - (com irritação) Por causa dos seus livros
você até esquece que eu existo!
PEDRO - (conciliatório) Não seja boba!
(Levanta-se, quer abraçar a mulher.)
ALAÍDE - (repelindo-o) Fique quieto! Não, não, já
disse!
(Pedro insiste.)
ALAÍDE - (sentida) Não quero! Vá ler seu livro, vá!
PEDRO - (brincando) Não vou!
VOZ DE CLESSI - (microfone) Quem é essa mulher
de véu?
PEDRO - Não seja assim, Alaíde!
ALAÍDE - (veemente) Não seja assim o quê! Você
nem me liga e agora está com esses fingimentos.
PEDRO - (afetuoso) Deixe de ser criança! Venha cá!
Um beijinho só!
ALAÍDE - (intransigente) Não, não vou, não!
Desista. (ameaçadora) Pedro! (repele-o) Também
vou ler!
PEDRO - O quê?
ALAÍDE - (enigmática) Você nem faz idéia! Um
diário! O diário de uma grande mulher!
(Trevas.)
ALAÍDE - (nas trevas, ao microfone) Ele não sabia
por que eu estava mudada. Tão mudada. Como
podia saber que era um fantasma - o fantasma de
madame Clessi - que me enlouquecia?
(Luz no plano da memória. Pedro lê.)
ALAÍDE - (provocante) Pedro. (diz o nome de
maneira cantante, destacando as sílabas: PE-DRO;
silêncio de Pedro) Ah! Está assim, héim!
PEDRO - (sem se voltar) Quem manda você fazer o
que fez?
ALAÍDE - Eu não fiz nada!
PEDRO - Me repeliu!
ALAÍDE - Repeli, sim. Eu não gosto de você! Deixei
de gostar há muito tempo! Desde o dia do nosso
casamento...
PEDRO - (levanta-se e aproxima-se) Bobinha!
ALAÍDE - Sério!
(Os dois se olham.)
ALAÍDE - (ficando de costas) Gosto de outro.
PEDRO - (apreensivo) Alaíde! Olhe o que eu lhe
disse!
ALAÍDE - (acintosa) Gosto, sim. Gosto de outro.
Que é que está me olhando?
PEDRO - (com certa ameaça) Não continue, Alaíde!
ALAÍDE - No mínimo, você está pensando: "Se ela
gostasse de outro, não diria." Acertei?
PEDRO - Você é completamente doida!
ALAÍDE - Por que é que você não se ofende com as
coisas que estou dizendo?
PEDRO - Vou ligar ao que você diz?
ALAÍDE - (irônica) Ah! Não! (exaltada) Você faz
mal em dizer que não mataria nunca a sua mulher!...
Um marido que dá garantias de vida está liquidado.
PEDRO - (irritado) Não provoque, Alaíde!
ALAÍDE - (exaltada) Vou abandonar você, fugir
daqui! Quero ser livre, meu filho! Livre! Tão bom!
PEDRO - (impulsivo, pega-lhe o braço, torce-lhe o
pulso. Terrível.) Não disse para não me provocar -
não disse?
ALAÍDE - (desesperada) Ai - ai! Eu estava
brincando, Pedro. Ai! Ai!
PEDRO - (sinistro) Nunca mais na sua vida brinque
assim - nunca mais! Ouviu?
ALAÍDE - (louca de dor) Pelo amor de Deus, Pedro -
ai. Não, Pedro! Juro...
Diga não ao desrespeito ao processo criativo do autor.
Email para contato: artelirica@hotmail.com - blog do autor: www.souzaheiras.blogspot.com




Ó meu Deus, ator onipotente, criador do maior espetáculo- o universo, ouvi-me nesta prece de amor!



























